OPINIÃO | Enquanto Globo apoia implicitamente Haddad, Record explicita apoio a Bolsonaro

Conforme pautado na edição anterior desta coluna, em virtude de fatores inéditos, as Eleições 2018 têm sido marcadas com intensidade superior as anteriores. Neste prisma, ressalta-se o apoio que os candidatos à Presidência da República têm recebido dos veículos de comunicação, mesmo que de forma mascarada (ou não). No âmbito das emissoras de televisão, a coluna destaca os lados opostos que as duas maiores redes percorrem nos trilhos especialmente deste segundo turno. Enquanto a Globo mostra-se, mesmo que de forma implícita, favorável ao candidato Fernando Haddad (PT), a Record tem escancarado seu apoio explícito ao candidato Jair Bolsonaro (PSL).

 

Tradicionalmente lembrada pelo apoio ao Golpe de 1964, mesmo após editorial com reconhecimento de que errou, a Globo segue atualmente tentando respeitar sua linha de pensamento, buscando não fugir de seus considerados novos ideais. A emissora tem se voltado ao combate de quaisquer formas de intolerância à diversidade e tem apoiado de forma constante a garantia dos direitos das minorias, com uma missão claramente congruente com as ideias progressistas.

Nesse cenário, não se estranha que a emissora esteja favorável ao candidato Fernando Haddad. Embora conhecida historicamente por suas duras críticas aos governos petistas, a emissora carioca teve de ceder nestas eleições tendo em vista a outra opção, cujos ideais encontram-se totalmente dissonantes com os seus e, inclusive, há riscos financeiros, tratados mais a frente, para a própria emissora como empresa privada.

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Nas últimas semanas, só a título de exemplos, tivemos provas claras do apoio implícito da emissora ao candidato Haddad do PT. Teve cena em Malhação com a professora Gabriela (Camila Morgado) explicando aos alunos sobre o fascismo (atrelado ao candidato do PSL) e o quanto ele é prejudicial à sociedade; teve exibição do filme “Que Horas Ela Volta?”, o qual trata dos conflitos que acontecem entre uma empregada doméstica do Brasil e seus patrões de classe alta, nitidamente relacionado a questões que envolvem Bolsonaro; Pedro Bial recebeu em seu Conversa com Bial sobreviventes do Holocausto e relembrou as atrocidades cometidas pelo nazismo, uma clara alusão ao “fascismo de Bolsonaro”; por fim, ressalta-se o recente e repercutido comentário feito por Miriam Leitão no Bom Dia Brasil, no qual, entre outras coisas, ela afirmou que Haddad e Bolsonaro não são equivalentes, pois o PT nasceu, cresceu e sempre jogou o jogo democrático, ao contrário do candidato do PSL, como ficou entendido pelo comentário.

 

Por sua vez, a Record segue em campanha declarada a Jair Bolsonaro. O ato que deixa mais claro esse apoio partiu de seu dono, Edir Macedo, que declarou publicamente seu voto no candidato do PSL, além de exercer influência no eleitorado por meio da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Não bastasse isso, a emissora protagonizou o que talvez tenha sido a principal prova de seu lado partidário nestas eleições. Exibiu uma entrevista longa com Jair Bolsonaro no mesmo dia e horário do debate da Globo, que foi o último entre os candidatos à Presidência no primeiro turno e ao qual o candidato de extrema direita não compareceu por suposta recomendação de seus médicos.

Tal entrevista foi obviamente um favorecimento a Bolsonaro, uma vez que a emissora deu muito espaço para o candidato apenas se defender e fazer campanha, ao passo que no mesmo momento (ou seja, dividiu os telespectadores/eleitores) os demais candidatos participavam de um debate, no qual se enfrentavam entre si e eram alvos seja de seus pares ou de jornalistas. 

Além dos fatos supramencionados, há também outros fatores que justificam a afirmação de que a emissora da Barra Funda esteja apoiando Jair Bolsonaro. Os telejornais do canal têm frisado notícias negativas acerca do candidato Fernando Haddad ou de seu partido, o PT, bem como tem produzido reportagens com teor prejudicial ao partido criado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Como exemplo, em uma das edições recentes de seu Domingo Espetacular, a emissora exibiu uma reportagem especial sobre uma Operação da Polícia Federal que apura lavagem de dinheiro envolvendo a Guiné Equatorial. Propositalmente, a emissora aproveitou para afirmar que a Guiné Equatorial, cujo governo é ditatorial, já teve relações com Lula. Sem dúvidas, o objetivo principal da reportagem especial no contexto atual foi desfavorecer Fernando Haddad e consequentemente favorecer o candidato Bolsonaro na disputa presidencial.

Mas quais motivos teriam levado a Record a “optar” por Jair Bolsonaro? A posição da Globo com Haddad se justifica em virtude de o projeto do petista estar mais consoante com os atuais ideais da emissora carioca. Por sua vez, algumas pessoas, inclusive jornalistas, já chegaram a afirmar que a Record estaria de olho na verba publicitária num eventual governo bolsonarista. Ou seja, além de Bolsonaro representar os “princípios do conservadorismo” brasileiro que fundamenta as ações das igrejas evangélicas, o que por si só já justifica o apoio de Edir Macedo, a emissora estaria almejando se beneficiar com um maior repasse das verbas publicitárias federais com a vitória de Bolsonaro.

Destaca-se que uma concessão pública não deve ou não deveria manifestar apoio a qualquer candidato em uma nação democrática. Todavia, fica muito mais feio para uma emissora da qual o dono manifeste publicamente seu voto e possua uma programação explicitamente favorável a determinado candidato. Como dar credibilidade ao jornalismo do canal, por exemplo? Isto é a Record! E até nisso a Globo é superior. Assim, espera-se que as emissoras brasileiras (todas!) um dia aprendam a importância da isenção.

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